Causa e efeito natureza.

Causa e efeito natureza.

O fim do primeiro semestre de 2019 é marcado por datas emblemáticas dentro do calendário ambiental global. Os dias importantes nos convidam a uma reflexão sobre a relação da humanidade com a natureza. De março a junho temos: Dia Internacional das Florestas (21 de março), Dia da Água (22 de março), Dia da Terra (22 de abril), Dia da Biodiversidade (22 de maio), Dia do Meio Ambiente (5 de junho) e Dia dos Oceanos (8 de junho). 

O apelo lúdico e midiático ao redor de tais datas evoca o nosso senso coletivo de agir pela manutenção dessa indispensável relação. Nestas ocasiões, via de regra, é muito comum a criação de parques e reservas, mutirões de limpeza de praias, plantio de árvores, a realização de atos que ocupam ruas e praças e de palestras que sensibilizam e engajam pessoas de A a Z. 

Observar essa movimentação coletiva, sinérgica e eufórica pró-natureza é nutridor, ainda que, de certa forma, seja apreendida na seara do “enxuga gelo”, perto das desproporcionais estatísticas desanimadoras. Aqui, refiro-me às dimensões do desmatamento, da produção de lixo per capita, dos efeitos da poluição de rios e mares. Diante de tal cenário, tais iniciativas, extremamente necessárias, são, para muitos, a centelha necessária para despertar ou expandir a consciência por um mundo onde a natureza tenha relevância diante dos nossos atos cotidianos por viver e sobreviver. 

O que essas datas nos dizem?

Essas datas desenham um recado aos olhos de todos: precisamos da natureza – saudável – para prosperar enquanto seres que a perfazem. O consciente coletivo absorve, à sua maneira, que a natureza nos presta serviços vitais, como ar puro, água em quantidade e qualidade, solo fértil para produção de alimentos, oportunidades de recreação, amenização climática, contenção de desastres naturais, encanto diante de paisagens de tirar o fôlego, entre muitos outros. Sob essa ótica, a natureza é vista como um estoque, da onde o ser humano, descolado do meio ambiente, retira para si e para outra dinâmica, muitas vezes, urbana, o substrato de sua existência. No entanto, ao fazer isso, explora o meio ambiente a fim de exauri-lo. E, sem perceber, exaure a si mesmo, uma vez que sem esses desejados “serviços ambientais” não haveria bem estar humano. Melhor, não haveria ser humano. 

Nesse contexto, faria todo sentido que as estratégias de desenvolvimento humano contemplassem, em seu âmago, sem titubear, soluções baseadas nas necessidades da natureza. Até porque, já há tecnologia suficiente para colocar em prática a máxima: conservar produzindo e produzir conservando. Ou seja, mais resultados de produção com menos consumo de recursos naturais e menos impacto sobre os ecossistemas naturais. 

Negar esse fio lógico tem sido uma opção, mas notadamente não a melhor, afinal, compromete o nosso aqui e agora e também o bem estar das futuras gerações. Compromete inevitavelmente também a economia nacional. O setor produtivo é atingido diretamente, e, por consequência, a geração de emprego e renda, a vida no campo e nas cidades e muitas outras entrelinhas. 

Imagine o agronegócio sem água e solo fértil? Da mesma forma com o setor das indústrias. E o que dizer dos maiores destinos turísticos que vêm em mente agora, imagine-os sob poluição das águas, doce e salgada? Imagine ainda a cidade de São Paulo sem o verde da Serra da Cantareira ou o Parque do Ibirapuera fechado em pleno domingo de sol? Como seria a saúde do carioca sem suas florestas? E a água que sai de sua torneira, de onde vem? É fato que esse valor da natureza ainda não é compreendido pela sociedade contemporânea. 

Produção de commodities (soja, carne, óleo de palma e outras) depende dos serviços ambientais para prosperar.

Mas, então, “quanto vale o verde”?

Essa oportuna e pragmática provocação foi feita, em 2018, em uma publicação de mesmo nome, liderada pela Coalizão Pró-Unidades de Conservação – tal livro deveria compor a cabeceira da cama de todos aqueles que têm o poder de decisão. Os resultados apontam que serviços ofertados pelo verde (produtos florestais, turismo, água, proteção dos solos, carbono evitado na atmosfera, tributos aos municípios), sobretudo, aqueles protegidos por unidades de conservação, traz contribuição bilionária à economia nacional. Sim, bilhões! E numa visão subestimada, reforçou os autores.

Mas na contramão dessa abordagem, outro estudo recente, de 2019, publicado pela Science, chamado “The uncertain future of protected lands and Waters” (O futuro incerto das terras e águas protegidas), trouxe resultados alarmantes da redução e até extinção de áreas naturais protegidas (700 alterações em 200 anos nos países da Amazônia e nos EUA, sendo 78% delas após os anos 2000), para dar lugar a atividades produtivas. 

No Brasil, o índice de desmatamento na Amazônia voltou a crescer exponencialmente em 2019, de acordo com dados do INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais): cerca de 730km2 somente em maio. Em 2016, durante o mesmo período, esse número era de 408km2. O aumento se deu, sobretudo, por conta do enfraquecimento de políticas públicas, ainda que tenhamos uma das legislações ambientais mais avançadas do mundo e que preza justamente pela proteção do “verde” e dos processos ecológicos vitais tão essenciais para a nossa existência e, novamente, economia do país. 

Desarticular instrumentos legais e instituições que regem e refletem essa dinâmica do verde pelo poder da lei, como o Código Florestal, o Sistema Nacional de Unidades de Conservação (SNUC), as normativas que regulamentam o uso de agrotóxicos e leis que protegem os territórios tradicionais, trará efeitos negativos diretos sobre o bem estar cotidiano do brasileiro. Menos verde significa menos capacidade da natureza em prover serviços ambientais. É o toma lá da cá da relação humanidade-natureza. É só lembrar da crise hídrica que assolou o país alguns anos atrás (não se engane, ela ainda nos assombra).

A natureza protegida pelo Parque Estadual do Jalapão é essencial para a economia do agronegócio.

Uma das chaves da solução é a colaboração

Como sociedade estamos, por um lado, conectados em modo “4G”. Por outro, desconectados dessa relação causa-efeito entre as ações humanas e as reações da natureza. Ainda assim, é notório que muitos já saíram do modo avião e uma evolução está em curso. O consciente coletivo tem se expandido, e as tais datas emblemáticas citadas lá no início ajudam bem a ilustrar isso. 

No entanto, algo deve ser colocado à luz do dia quando falamos em ações pró-natureza. Trata-se da colaboração. Aqui, parte da dinâmica colaborativa detém-se em compreender que existir e estar no mundo é ser parte da natureza. É uma via recíproca. A relação, indispensável, está aqui. Sem natureza, não há ser humano. Por isso, colaborar para que a natureza se mantenha firme é colaborar para a nossa existência, muito além do nosso bem-estar. 

Portanto, procure co-cuidar, co-criar e colaborar através das ações e campanhas de organizações não governamentais próximas a você ou por meio do seu próprio trabalho, seja no setor empresarial, no governo ou no setor de impacto. Crie parcerias entre sua organização e outras que podem ajudar. Influencie processos na empresa em que trabalha. Monitore políticas públicas e processos decisórios que afetam você e o outro, que também é você e a natureza. Tudo isso, de alguma forma, tem causa e efeito. Transforma!

Autor: Adriano Melo é engenheiro florestal, mestre em Ciências Ambientais e Florestais pela UFRural-RJ e especialista em planejamento e gestão de áreas naturais protegidas pela Warner College of Natural Resources, Colorado State University. Atualmente, é Coordenador de Projetos na Conservação Internacional. Email:  florestal.adriano@gmail.com 
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