Por que a discussão sobre crise ambiental está relacionada ao debate de gênero?

Por que a discussão sobre crise ambiental está relacionada ao debate de gênero?

É fato que a sociedade atual vive em um modelo econômico desconexo da integridade humana e da natureza. Após as revoluções Industrial e Tecnológica, intensificou-se o uso desenfreado de matéria-prima, levando-se em consideração apenas a produção de mercadorias, em detrimento da regeneração natural dos recursos.

Em decorrência desse e de outros fatores, para mim, deve haver uma maior preocupação na relação da humanidade com a natureza. A “crise ambiental”, tão comentada e, ainda assim, ignorada, é de conhecimento público e permeada por evidências científicas. No entanto, um fato não muito comentado sobre isso saltou-me aos olhos: o impacto dos efeitos adversos das mudanças climáticas para as mulheres. 

Segundo um relatório da Women’s Environmental Network¹ (WEN – Rede Ambiental das Mulheres), uma organização baseada no Reino Unido, mais de 10 mil mulheres morrem anualmente em desastres relacionados à mudança do clima. Do sexo masculino, são 4.500 homens. Menos da metade.

Se já não bastasse toda a desigualdade que sempre cai sobre os ombros das mulheres, donas de casa, mães de família, periféricas, somos as primeiras atingidas pela crise ambiental devido às condições de inferioridade política e econômica postas sobre nós. Estas aumentam a nossa vulnerabilidade aos desastres intensificados pelas mudanças do clima como tempestades, incêndios, enchentes, secas, ondas de calor, doenças e penúrias alimentares. 

Como mulher jovem amazônida, tive uma relação bem próxima da natureza, pois sempre a entendi como parte de mim e do meu território. Uma vez conservado o meio ambiente onde vivo, simultaneamente, mantém-se intacta toda a minha história, os meus costumes e a minha cultura. Por essa e outras, acredito que nós somos os únicos capazes de intervir de forma a conservar o meio ambiente em que vivemos, majoritariamente destruído por nós mesmos. 

Se eu pudesse indicar uma forma de intervir seria a introdução de práticas², no dia a dia, que contribua para o florescimento de uma vida mais sustentável. E, tratando-se de práticas sustentáveis, poderia aqui citar diversas delas que podemos introduzir gradualmente, transformando os nossos hábitos, como oficinas de compostagem, horta vertical a partir de garrafa pet e noções básicas sobre coleta seletiva. 

Engajamundo Manaus.

Junto do Engajamundo em Manaus, uma organização de liderança jovem que atua com temas socioambientais, levamos ao jovens, então, a seguinte reflexão: quem somos quando se trata de território-natureza somado à preservação do ecossistema?

Entendendo como a mudança de hábito é importante para o equilíbrio socioambiental, considero a participação dos jovens de extrema relevância. São os jovens os futuros trabalhadores e legisladores, por exemplo, do país. Pensar os espaços apenas por aqueles que não são impactados diretamente pelos efeitos climáticos é ultrapassado. Por isso, inserir vozes diversas nos debates é mais coerente e extremamente importante.

E é principalmente a partir das mulheres, a parte da população mais afetada pelas mudanças climáticas, que observo e concretizo as mudanças.  Elas se reconectam a partir desse olhar integrado da relação entre humanidade e natureza e são multiplicadoras de práticas conscientes dentro das suas realidades, sejam elas familiares, em suas comunidades ou em ambiente de trabalho. 

É através do olhar crítico que vamos recuperar essa “conexão” mulher-natureza, que só será possível com a participação e a colaboração de diversos atores sociais, dentre eles indígenas, quilombolas, juventudes, comunidades periféricas e nós, mulheres. Discutimos igualdade de gênero por todo o planeta, mas ainda são muitos desafios para sua plena inclusão, levando em consideração o nosso contexto social. 

Autor: Thalita Silva é jovem amazônida e coordenadora do Engajamundo. Contato Instagram: @caboqinha

¹Gender and the Climate Change Agenda”, www.wen.org.uk, 2010.

²Cartilha 10 atitudes simples que irão tornar seu evento mais diverso, inclusivo e sustentável.

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